POLÍTICA, HISTÓRIA E MEMÓRIA COMO CHAVE DE LEITURA DAS ALEGORIAS DE A IDADE DA TERRA DE GLAUBER ROCHA

Imagem e Cultura


Este trabalho visa a interpretar as alegorias constitutivas do filme A Idade da Terra, último filme de Glauber Rocha. Para tanto, busca-se apoio na obra de Walter Benjamin, em particular sua discussão relativa à perda da aura e a implicação que tal perda traz consigo no sentido do estabelecimento de uma política da arte, sua teoria da alegoria e as teses de seu último escrito sobre a história. Quanto aos parâmetros metodológicos e hermenêuticos, as balizas são requisitadas em Walter Benjamin e nas técnicas de interpretação de Sigmund Freud, principalmente. Isto porque tais ferramentas mostram-se eficazes, uma vez que o filme apresenta caráter fragmentário, não linear e eminentemente alegórico, que o aproxima de maneira a mais radical do que Pasolini designa como “cinema de poesia” em oposição ao cinema narrativo, de “prosa”. Um filme, portanto, apoiado essencialmente no elemento audiovisual, de tal maneira que demanda uma técnica de interpretaçãoque permita a consideração de tais elementos e as lacunas e elipses que, necessariamente, ele apresenta em seu plano geral. O resultado a que se chega ao final do percurso é da atualidade do debate político que se apresenta em A Idade da Terra, atualidade que advém justamente da recuperação dos fragmentos da história do Brasil, da retirada da sombra daquilo que constituiu o alvo da ditadura civil-militar e que, por isso mesmo, ela procurou, em sua versão, manter sob recalque: o itinerário político do trabalhismo no Brasil e aquilo que ele representa como elemento-chave na construção do Brasil como nação moderna e soberana – isto como elemento de caráter mais geral na significação do filme. Cabe ainda chamar atenção para o fato de que, da perspectiva adotada no presente trabalho, Glauber só pôde ser bem-sucedido no que se propôs – a retomada do fio da história partido em 1964 – porque confronta os elementos mais contraditórios e paradoxais da cultura e da prática política brasileiras em seu último filme, bem como em seus filmes anteriores e em seus escritos, o que lhe propicia a possibilidade de enunciação de uma utopia de Brasil para o século XXI que não exclui os perigos que tais contradições necessariamente introduzem.

Tese Marcelo Fonseca Alves 2016